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Ideias do Milênio

"Maiores ameaças ao mercado global não são econômicas, são políticas"

Entrevista concedida pelo CEO e fundador do Grupo Eurasia Ian Bremmer ao jornalista Jorge Pontual, para o Milênio — programa de entrevistas, que vai ao ar pelo canal de televisão por assinatura GloboNews às 23h30 de segunda-feira, com reprises às terças-feiras (17h30), quartas-feiras (15h30), quintas-feiras (6h30) e domingos (14h05).

Ian Bremmer afirma que aposta no cenário brasileiro em longo prazo, por existir classe empresarial e financeira "avançada".
Reprodução/www.ianbremmer.com

Jorge Pontual — Ian Bremmer é CEO e fundador do Grupo Eurasia, principal consultoria de risco político mundial. Hoje em dia, quando os investidores vão aplicar dinheiro em algum país eles consultam o Grupo Eurasia para ver qual é o risco que eles estão correndo, risco político.
Ian Bremmer —
O mundo passa por recessões econômicas a cada 7 ou 8 anos desde a Segunda Guerra e nos acostumamos com esses ciclos, mas não há uma recessão geopolítica desde 1945. Estamos vivendo uma agora. Nós nos concentramos na globalização e na conectividade por décadas. Agora nos concentramos no descontentamento e numa ordem mundial que começa a ruir sem saber o que vem a seguir. Dessa perspectiva, 2017 é um ambiente de risco político de volatilidade sem precedentes.

Jorge Pontual — Vamos falar dos maiores riscos de 2017, que você acaba de lançar. Você chama de recessão geopolítica. Por quê?
Ian Bremmer —
As pessoas entendem o conceito de recessão. Recessões econômicas acontecem a cada 7 ou 8 anos em média desde a Segunda Guerra. Temos até um termo técnico: “recessão técnica”, se seu país tem crescimento negativo dois trimestres seguidos, sabemos o que é o ciclo de expansão e o de queda. Bom, descobrimos que a geopolítica também tem ciclos de expansão e queda. A última vez que tivemos uma recessão geopolítica foi na Segunda Guerra Mundial. Desde então, os EUA se tornaram responsáveis pelo ciclo de expansão, a “pax americana”.

Nós criamos a arquitetura, as instituições e as alianças globais, primeiro sozinhos, depois com o desafio dos soviéticos e da Guerra Fria. Isso acabou em 1991 e ficamos sozinhos de novo. Desde 1945, houve um ciclo de expansão geopolítica, mas quem conhece a história do mundo sabe que o fato de um país pequeno como os EUA em relação ao tamanho da população global controlar a ordem mundial por tanto tempo é muito incomum. O fim estava chegando. Se Hillary Clinton tivesse sido eleita, teria acontecido durante um período mais longo, de forma mais suave, e os EUA participariam mais da transição, mas, com a eleição de Trump, o fim da “pax americana” é agora.

Não importa se seus valores são parecidos com os nossos se tiver um bom negócio para nós. Essa América independente vai enfraquecer a confiança entre os principais países do mundo, vai enfraquecer os acordos e as alianças, vai fragmentar os padrões mundiais e, detesto dizer, vai facilitar o surgimento de guerras.

Jorge Pontual — Essa independência dos EUA faz parte da reação mundial contra a globalização, certo? O que explica isso?
Ian Bremmer —
Acho que há alguns motivos, talvez três, principais. O primeiro é que a globalização não ajudou todo mundo. Ajudou os mais ricos, talvez os 10% mais ricos, e depois ajudou a classe média global.

Jorge Pontual — Muita gente saiu da pobreza.
Ian Bremmer —
Sim. A China é hoje a segunda economia mundial, e não era nada há 35 anos. Cresceu, em média, quase 10%. O Brasil, a Índia, os Brics. A história da classe média emergente global aconteceu graças à globalização. Segundo: imigração. A globalização não só possibilitou que você levasse sua produção para o exterior, mas também que importasse talentos. E isso não traz apenas questões econômicas, mas pessoas de aparência diferente, que agem de outra forma, de outras culturas, e o que vemos é que, nos EUA, há muitos brancos que olham em volta veem que o mundo e os EUA estão dizendo que mulheres têm mais importância, hispânicos têm mais importância e são cada vez mais, asiáticos têm mais importância, um negro virou presidente dos EUA e não se sentem bem.

Terceiro motivo: conectividade. O primeiro bilhão de pessoas com acesso à internet ou eram ricos do mundo desenvolvido ou elites de mercados emergentes. Hoje há bilhões de pessoas conectadas, a maioria pobre. Elas não estão felizes com o status quo e são mais capazes, graças a esses aparelhos, de saber como os outros vivem e também de usar sua voz e se conectar a outras pessoas como elas para expandir seu descontentamento.

A tecnologia hoje é a maior ameaça a novos empregos, não é a globalização. É a automação e a inteligência artificial, a fabricação em 3D. Se essas coisas tirarem o emprego das pessoas nos próximos dez anos, não só nos EUA, mas no Brasil, o movimento antiglobalização vai crescer muito mais nos mercados emergentes também. Estou agora numa posição, pela primeira vez na carreira, na qual acredito piamente que as maiores ameaças ao mercado global não são econômicas, são políticas. Eu nunca disse isso.

Se os EUA não quiserem liderar, os chineses farão mais. A China não é mais aquela de dez anos atrás, que dizia: “Somos pequenos, somos pobres, não prestem atenção em nós.” Agora, ela diz: “Queremos a globalização. Queremos cuidar da manutenção da paz. Vamos apoiar o novo secretário-geral da ONU e contribuir mais. Vamos gastar US$ 1 trilhão na Nova Rota da Seda e investir em infraestrutura e queremos o nosso acordo de livre comércio”.

A moeda chinesa já faz parte do sistema SDR do FMI. Todas essas coisas estão mudando, mas vamos deixar claro que Trump, como presidente eleito, já disse várias coisas para a China e sobre a China profundamente preocupantes para o governo chinês sobre Taiwan, a política da China Única, a Coreia do Norte e suas armas nucleares, a falta de ação da China para que o programa nuclear não continue crescendo, a manipulação da moeda chinesa, propriedade intelectual, impostos, comércio, e os chineses já começaram a reagir, com uma multa contra a General Motors, com atividade militar no mar da China Meridional e perto de Taiwan, então eu acho que Trump, e vimos em suas indicações para o gabinete, principalmente no comércio, muito provavelmente vai sair atacando Pequim. Então esta é uma péssima hora para Trump ficar provocando sobre Taiwan ou tuitando sobre a Coreia do Norte.

Jorge Pontual — Segundo seu relatório, a Coreia do Norte vai ser um risco real este ano, certo?
Ian Bremmer —
Sim, e eu disse isso antes de Trump começar a tuitar sobre o assunto. Primeiro: Trump, não tuíte. E, se for tuitar, não tuíte sobre a Coreia do Norte! Porque os norte-coreanos são mais imprevisíveis do que Trump! Ele disse que não permitirá que os norte-coreanos coloquem uma arma nuclear num míssil que possa atingir os EUA. Ele vai impedir.

Dá para ver a confusão armada. Nos últimos anos do governo Obama, esses relacionamentos não foram nada fáceis, mas foram razoavelmente bem gerenciados. Obama teve muitos problemas em política externa, mas não esse. Isso está com cara de um confronto muito provável. E a Coreia do Norte no meio de tudo, o único regime realmente totalitário do mundo, e ela tem muitas cartas na manga, porque nada a limita. O que vamos fazer contra eles? Eles podem destruir Seul, na Coreia do Sul, em 24 horas, usando apenas artilharia convencional. Nem precisam de armas nucleares. Então é prudente pressioná-los?

Jorge Pontual — Você escreveu: “A Europa nunca precisou tanto de uma Merkel forte. Em 2017 ela não interpretará esse papel.”
Ian Bremmer —
Acho que está certo. Sabemos que crises atingiram a Europa desde a crise de 2008. Houve a crise da zona do euro e todas as implosões econômicas: Grécia, Espanha, Portugal. Agora eles terão de lidar com o Brexit, o que vai levar muitos anos. Os italianos perderam o plebiscito, haverá eleição na França em 2017, há os refugiados, o problema do terrorismo... A única coisa na qual confiamos desde 2008 é na chanceler alemã com força e disposição para reagir, para liderar a reação com o Banco Central Europeu. Em 2017 Merkel está bem mais fraca. Ela vai vencer.

Jorge Pontual — Ela vai ser reeleita.
Ian Bremmer —
Seria um desastre se não fosse. Ela vai ser reeleita. Merkel estará mais fraca, portanto a capacidade de os europeus responderem com eficácia à crise que ocorrer e a capacidade de a Alemanha contar com uma relação forte com os EUA não serão as mesmas. Então temos de reconhecer que, em 2017, a aliança mais importante do mundo, a Aliança Transatlântica, que existe desde 1945, será a principal vítima da recessão geopolítica.

Jorge Pontual — O que acha que será um grande risco para 2017.
Ian Bremmer —
No Oriente Médio, muito antes de a tecnologia cortar empregos, lá a tecnologia tirou o poder do petróleo. Com a revolução energética, a Arábia Saudita não é mais o maior produtor de petróleo. Os EUA são. Graças a novas tecnologias. Em cinco anos, a coisa que dava legitimidade àqueles governos, que permitia que gerassem muita riqueza para o povo, justificando seu regime, erodiu de forma dramática e vai piorar.

Além disso, há todas essas pessoas no Oriente Médio com acesso a smartphones. Nos EUA, se nós não assistimos a uma das grandes redes e acompanhamos a CNN ou a MSNBC, há polarização, mas a maioria de nós nem vota, não é? No Oriente Médio, se você não vê a Al Jazeera, vê canal sunita, o canal xiita, canais tribais, e isso causa muitos confrontos. E esses governos precisam de privacidade, precisam ser capazes de conduzir seus negócios de forma reservada. Na era do WikiLeaks e dos Panama Papers, o que acontece se a forma como os sauditas gastam seu dinheiro, se comportam e colaboram com os EUA e até Israel nos bastidores vier a público? Esses países vão desmoronar.

Acho que é a questão da tecnologia que está por trás do motivo pelo qual não há saída para o Oriente Médio, do motivo do crescimento do terrorismo e do radicalismo no Oriente Médio e do motivo pelo qual é tão difícil... Todo mundo tenta descobrir o que fazer para consertar, mas só atacamos militarmente os sintomas e não as causas. Isso mostra por que 2017 vai ser tão difícil.

Jorge Pontual — Outras previsões para 2017 mencionam coisas que são esperadas, óbvias, que você deixa de lado, como terrorismo, Síria, mudanças climáticas e outras coisas. Por que você não explorou esses assuntos?
Ian Bremmer —
Por dois motivos. Em primeiro lugar, o Isis já perdeu 25% de seu território na Síria e no Iraque e provavelmente vai perder o califado este ano. O terrorismo vai se tornar um risco maior, mas nós queríamos entender o que está por trás das manchetes. Queremos que as pessoas que vão ler esse relatório entendam por que o ambiente de risco está crescendo. Dizer que a situação na Síria vai ser ruim não é útil. Entender que o Oriente Médio não tem conserto e está se tornando um Estado pré-westfaliano, que governos estão ruindo porque a tecnologia está desvendando as coisas é muito importante.

Não mencionamos o clima porque, francamente, a maioria dos grandes riscos envolvendo o clima ainda são a longo prazo. E sem dúvida, se pensarmos num país como o Iêmen, onde não há mais água, é uma questão climática. E as tempestades e as secas graves que acontecem na África Subsaariana também são, mas as principais economias do mundo acham que ainda dá para empurrar isso com a barriga, então não acho que o clima em si vai gerar muitas manchetes globais em 2017. A longo prazo, esse é um risco no qual claramente a relutância dos governos em encarar o assunto vai cobrar sua conta.

Jorge Pontual — Como você vê o Brasil nesse cenário de recessão geopolítica?
Ian Bremmer —
Em 2017 vamos ver muito poucas reformas nos mercados emergentes de todo o mundo. E em vários lugares isso vai acontecer porque os líderes não têm capital político para promover reformas. No Brasil, isso também é verdade. O atual presidente não tem capital político, que assumiu após o impeachment de Dilma Rousseff, mas, como a operação 'lava jato' continua acontecendo e há uma pressão enorme não só sobre o presidente como também sobre integrantes do poder legislativo em relação à corrupção e eles temem ser atingidos também, eles não querem isso. E entendem que precisam agir para manter a economia brasileira nos trilhos.

Então nós achamos que, por causa da fraqueza em 2017, a reforma da Previdência, muito impopular, vai acontecer. Esse é um ponto positivo claro para o Brasil. Por mais estranho que pareça, 2017, apesar de todos os problemas, parece melhor. E, depois das próximas eleições, o Brasil entrará numa trajetória melhor.

Jorge Pontual — Apostam no Brasil a longo prazo?
Ian Bremmer —
Apostamos, sim, sem dúvida. É o primeiro escritório que abrimos num mercado emergente, e não fizemos isso por simpatia. Todo mundo devia ter um escritório no Brasil porque lá é muito divertido, mas nós decidimos por acreditarmos no mercado a longo prazo. Entre os Brics, o Brasil é de longe o mais desenvolvido. É onde há o Estado de Direito, onde há uma classe empresarial e financeira mais avançada, mais capaz de atuar globalmente. A China é um mercado muito mais empolgante, também é muito mais volátil e não há Estado de Direito. O mercado russo é menor do que o canadense, mas eles têm muitas armas nucleares. Não é um ótimo mercado, certo? E a Índia está demorando demais. A trajetória da Índia é ótima, mas o caminho ainda é muito longo. Há ótimos motivos para acreditar no Brasil a longo prazo.

Jorge Pontual — Apesar de o panorama para 2017 ser tão negativo, você é um otimista. Quais são os motivos do seu otimismo?
Ian Bremmer —
Em primeiro lugar, a minha existência. Devemos nos lembrar de que essa é uma benção extraordinária. Não sabemos por que estamos aqui, e é muito importante tirar proveito disso e ser produtivo. Sou existencialmente otimista. Não digo: “O copo está metade cheio.” Digo: “Tenho um copo, que ótimo!”

Eu encaro a vida assim. Cresci num conjunto habitacional. Eu sou o sonho americano e tenho total consciência do fato de que muitos americanos acham que não têm mais as mesmas oportunidades, então é obrigação minha e do Grupo Eurasia fazer o que pudermos num ambiente no qual nosso trabalho é mais importante, mais relevante e faça a diferença para tentar ajudar. Mas, além disso, acho importante entender e reconhecer que nos últimos vinte anos um bilhão de pessoas saíram da pobreza no planeta, e essa é a façanha mais extraordinária da humanidade em nosso curto tempo neste planeta. E as ferramentas que temos para fazer a diferença são sem precedentes, e embora 2017 vá ser um ano muito difícil – podemos retroceder e muita gente pode ficar pior do que estava – precisamos reconhecer que são os indivíduos que importam.

Num mundo de declínio do poder ocidental, no qual os governos estão fazendo menos, os indivíduos farão mais. Gente como Bill Gates, Mike Bloomberg, o papa Francisco... Essas pessoas vão aceitar o desafio, porque o ser humano reage à adversidade, e se pudermos adicionar à lista Ian Bremmer e o Grupo Eurasia, mesmo que de uma forma pequena, ficarei muito feliz com nossas conquistas em 2017. 

Revista Consultor Jurídico, 29 de janeiro de 2017, 18h05

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