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Direito à civilidade

STF publica acórdão sobre dever do Estado de indenizar preso em situação degradante

O Supremo Tribunal Federal publicou na segunda-feira (11/9) o acórdão em que reconhece o direito de preso submetido a condições degradantes de ser indenizado. A corte concluiu o julgamento em fevereiro deste ano.

Ministro Barroso defendeu a tese de que a indenização deveria ser paga em dias remidos, não em dinheiro, mas acabou vencido nessa tese.

Venceu a tese de que presos submetidos a condições desumanas e a superlotação em presídios devem ser indenizados em dinheiro. Por 7 votos a 3, o Plenário definiu a responsabilidade civil do Estado pelas pessoas que mantém presas. E se elas estão sem “condições mínimas de humanidade”, devem ser indenizadas, inclusive por danos morais.

Venceu o voto do ministro Teori Zavascki, morto em janeiro deste ano, que havia iniciado o julgamento em dezembro de 2014, interrompido por pedido de vista do ministro Luís Roberto Barroso. Teori foi acompanhado pelos ministros Luiz Edson Fachin, Rosa Weber, Dias Toffoli, Marco Aurélio e Cármen Lúcia.

Todos concordaram com a tese apresentada por Teori: "Considerando que é dever do Estado, imposto pelo sistema normativo, manter em seus presídios os padrões mínimos de humanidade previstos no ordenamento jurídico, é de sua responsabilidade, nos termos do artigo 37, parágrafo 6º, da Constituição, a obrigação de ressarcir os danos, inclusive morais, comprovadamente causados aos detentos em decorrência da falta ou insuficiência das condições legais de encarceramento".

Barroso, que havia apresentado seu voto-vista em março de 2015 (ali a vista foi da ministra Rosa), entendia que a indenização não deveria ser em dinheiro, mas em dias remidos. Propôs a tese de que seria remido um dia para cada três a sete em que o preso ficasse submetido a condições inadequadas. Para ele, a solução do caso concreto não pode criar “um problema fiscal”. “A indenização pecuniária não tem como funcionar”, disse então.

Foi acompanhado pelos ministro Luiz Fux e Celso de Mello, mas a maioria entendeu que o Supremo não pode atuar como “legislador positivo”. O decano lembrou em seu voto de declaração do ex-ministro da Justiça José Eduardo Cardozo de que preferia o suicídio a ser preso “nas masmorras” que são as prisões brasileiras.

Celso citou o caso concreto em discussão, sobre um já ex-detento que não tinha espaço para dormir e tinha de apoiar a cabeça na privada. “Esse comportamento por parte do Estado é desprezível, inaceitável!”

O ministro gostou da tese de Barroso por ela se adequar a um precedente de 2011 da Suprema Corte dos Estados Unidos que limitou a superlotação carcerária ao máximo de 137% — ou seja, superar a capacidade total em, no máximo 37%. Isso resultou na soltura de 46 mil pessoas.

Marco Aurélio e Fachin, embora tenham acompanhado o relator no mérito da decisão, ficaram vencidos numa parte. Ambos votaram para que o recurso fosse provido, e o preso em questão recebesse o equivalente a um salário mínimo por mês em que tenha sido submetido a situação degradante. A tese vencedora manteve o acórdão recorrido, que fixou a indenização em R$ 2 mil. “A quantia é irrisória, ante a submissão a situação desumana”, disse o ministro Marco Aurélio.

Incoerências
A jurisprudência do Supremo em relação às prisões segue diversas direções ao mesmo tempo. Em fevereiro de 2016, o tribunal definiu que não cabe Habeas Corpus, o remédio contra violações à liberdade de ir e vir, contra decisão de ministro do STF. Seis meses antes, havia decidido exatamente o contrário.

Na mesma sessão de fevereiro, o Supremo também definiu que penas de prisão podem ser executadas antes do trânsito em julgado da condenação, contrariando o texto do inciso LVI do artigo 5º da Constituição Federal.

Em setembro de 2015, seis meses antes, portanto, o Plenário do STF concluiu o julgamento da já famosa ADPF 347, que definiu que o sistema carcerário brasileiro está num “estado inconstitucional de coisas”, por causa das sucessivas violações de direitos humanos. Quando o STF autorizou a execução antecipada da pena, o ministro Ricardo Lewandowski, vencido, se mostrou incrédulo: “Reconhecemos as inconstitucionalidades e violações de direitos humanos nas prisões e agora vamos mandar mais gente para este verdadeiro inferno?”.

O relator da ADPF foi o ministro Marco Aurélio. Quando ficou decidido que o Estado deve indenizar presos submetidos a condições degradantes, ele disse que “o Estado precisa acordar e fazer cumprir a Constituição”. Mas que isso não quer dizer que todos os presos do Brasil receberão indenização. “Definimos uma tese que autoriza o pagamento de indenização pela submissão de presos a condições degradantes. Mas julgamos um caso concreto”, disse.

A ministra Cármen Lúcia, presidente do Supremo e do Conselho Nacional de Justiça, lembrou da ADPF em Plenário. Disse que apresentaria um relatório com os trabalhos desenvolvidos pelo CNJ, conforme ficou determinado pela liminar, naquela ocasião.

Clique aqui para ler o acórdão. 

Revista Consultor Jurídico, 12 de setembro de 2017, 7h44

Comentários de leitores

4 comentários

inversão de Valores

Llucio (Investigador)

Com muita tristeza que, a cada dia que passa, vivencio prioridades invertidas... o estado será obrigado a indenizar os presos pelas condições a que se submetem... será que suas vítimas não deveriam ter essa prioridade, será que o policial ou seus familiares não deveriam ter esse amparo do governo? Aonde vamos chegar com essas ações a favor de deliquentes? será que realmente o crime compensa?

Quero ser preso

Luiz Carlos de Alvarenga (Oficial da Aeronáutica)

Num país como o Brasil onde o salário mínimo pago a um trabalhador, homem livre, é um salário de fome, o condenado ganhar R$ 2.000,00 - mais do que 2 SM -, sem trabalhar ou sofrer qualquer desconto, a prisão será uma boa e legal saída para viver melhor do que os homens livres.
Quero ser condenado...

Prioridades para criminosos. Hipocrisia tem limites.

J. Ribeiro (Advogado Autônomo - Empresarial)

Não é dado ao Judiciário estabelecer condições aos presos melhores do que as condições daqueles que mereceriam melhor atenção e amparo do Estado.
Será que as vítimas também não poderiam ter direito a indenização por falta ou descaso na segurança pública?
Na atual conjuntura que está passando o país, onde delinquentes públicos estão surrupiando os cofres da nação e bandidos tirando vidas de inocentes, ao retirar da boca daquelas pessoas mais carentes e do bolso de contribuintes e cidadãos que ainda se encontram empregados ou trabalhando; tais decisões além inoportunas, transmitem para os cidadãos de bem uma frustração, colocando por terra o resto de suas auto estima. Cabe a sociedade estabelecer suas prioridades e condução na solução dos problemas sociais.
Em que pese as más condições que vivem os presos nesse pais, há prioridades mais nobres e urgentes a serem solucionadas. Isso, com certeza, não cabe ao Judiciário, o qual deveria melhor cuidar de agilizar as pendencias de pilhas de processos sem solução nas varas e tribunais.

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