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República da Moldova, a próxima Ucrânia

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Poucos no Brasil devem saber que existe um pequeno país chamado Moldova ou Moldávia, situado no sudeste da Europa, às margens do Mar Negro. Com uma área de cerca de 33 mil km quadrados (um pouco menor que o estado do Rio de Janeiro) e uma população de cerca de 2,6 milhões de habitantes, com capital na cidade de Chisinau, este país, em pouco tempo, estará nas manchetes de todos os jornais do mundo como hoje está, infelizmente, a Ucrânia.

Vista aérea de Chisinau, capital da Moldova
iStockphoto

Moldova tem uma rica história, inserida na própria história da Europa. História conturbada de invasões, anexações, independência e reconquista, ocupação e liberação.

Ao fim da Primeira Guerra Mundial (1914-1918), a região foi incorporada à Romênia, eis que a grande maioria de sua população tinha origem romena. Foi criada, assim, a Grande Romênia, que também recebeu a Transilvânia e diversos outros territórios advindos do antigo Império Austro-Húngaro. Tendo cerrado fileiras ao lado da Alemanha Nazista, a Romênia sofreu a punição de perder toda a região para a União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, sob o jugo de Josef Stálin, após o fim da guerra. Foi criada a República Socialista da Moldova, incorporada à URSS. Com o desmantelamento do "império soviético" em 1991, a ex-república socialista ganhou independência, sendo reconhecida internacionalmente como Moldova, mesmo que muitos de seus habitantes manifestaram desejo de regressar à Romênia.

Quase que imediatamente à independência, parte da população russa que vive às margens do rio Dniester declarou sua independência e intenção de se unir à Rússia. Poucos países do mundo reconheceram a validade desta declaração, dentre eles, a própria Rússia. Imediatamente, tropas russas foram enviadas para a região, para garantir a "segurança" da população de origem eslava.

Em poucas linhas, um resumo da história recente da Moldova e todo o seu potencial para se transformar em uma "nova Ucrânia", já com o seu "Donbas" instalado e as justificativas prontas para uma nova ofensiva russa na Europa.

Muito tem se debatido se a Rússia iria usar as tropas que estão estacionadas na Transnístria como cabeça de ponte para a invasão do sul da Ucrânia em direção a Odessa. Até agora (julho de 2022), as tropas permanecem quietas, embora os líderes da pró-russo tenham já declarado sua posição favorável à Rússia.

Este é o potencial de se criar uma nova situação pró-Rússia em todo o chamado "near abroad", ou seja, aquelas regiões circundantes do território russo e que, uma vez, integraram a extinta União Soviética e que, segundo o atual governo russo (Vladmir Putin) fazem parte inalienável do território natal russo e devem voltar ao coração da "Mãe Russa".

A guerra da Ucrânia trará consequências drásticas para a Europa e para o mundo, caso a Rússia não seja contida imediatamente. É a primeira vez em que uma superpotência (mesmo com todos os problemas sociais e econômicos enfrentados pela Rússia), detentora de armamento nuclear pesado, invade um outro país na Europa após o fim da Segunda Guerra Mundial.

A invasão da Ucrânia é diferente das antigas "invasões russas" durante a Guerra Fria (Checoeslováquia, Hungria, Polônia) justamente porque se trata de uma país independente e que tem um tratado de respeito mútuo das fronteiras e da própria soberania, assinado com a própria Rússia, nos anos 1990, em troca da entrega de seu arsenal nuclear. Ou seja, aceitando se desarmar atomicamente, a Ucrânia recebeu a promessa da Rússia de que suas fronteiras pós-independência seriam respeitadas. Tais fronteiras, evidentemente, incluíam toda a Crimeia e a toda a região do Donbas, onde se situam as "províncias rebeldes", já reconhecidas como independentes pela Rússia. 

O que estaremos brevemente a assistir será uma repetição de todo o teatro que antecedeu a invasão russa da Ucrânia, caso a Rússia ganhe a guerra. Logo em seguida, em questão de meses ou de poucos anos após o fim da guerra, a Rússia também anexará toda a região da antiga "república socialista" da Moldova, pondo fim às alegadas ameaças contra a população eslava.

A Rússia e suas tropas virão como um Exército libertador da opressão Moldova (romena) contra a minoria eslava, tornando-se, então, os verdadeiros opressores. Para tanto, contarão com as tropas já estacionadas na região do Dniester e as demais que ocuparão toda a Ucrânia.

Por isso, a Europa, a Otan e todo o mundo livre devem olhar com atenção para a Guerra da Ucrânia; não apenas olhar, devem apoiar com todos os recursos possíveis, econômicos, financeiros, mas, especialmente, militares, a resistência da Ucrânia contra a invasão russa.

Se a "teoria do dominó" tem algum valor estratégico (como se pensou ter nos anos 1960 no Sudeste Asiático e daí a Guerra do Vietnã), esta é a hora de entender a teoria e aplicar seus enunciados práticos: evitar que caia uma peça de valor estratégico (Ucrânia) para evitar que outras peças de valor estratégico menor, mas também importante em todo o tabuleiro de jogo (Europa) caiam também em um movimento de difícil recuperação.

Se a Moldova é um país pequeno em área e população, seu significado estratégico, histórico e filosófico é bem maior do que se pode imaginar, em uma primeira visão do mapa. Moldova é a Ucrânia de amanhã e para que tal situação não se concretize, toda o apoio à Ucrânia é fundamental nesta hora.

Com uma ocupação russa da Moldova amanhã, toda a região dos Balcãs e do sul da Europa estará novamente sujeito à influência da propaganda russa de que existe um "renascimento nazista" que precisa ser combatido. Moldova tem o mesmo significado para a Rússia de Putin que tem os países bálticos, sendo considerados "ovelhas desgarradas" do grande rebanho russo e negado seu direito à uma existência independente digna e sem ameaças.

O envio de tropas romenas (e outras da Otan) para a Moldova se faz imperativo e inadiável a fim de dar um recado claro e induvidoso ao atual governo russo de que o avanço do agressor será resistido com toda a força militar disponível. Outra solução seria aceder ao desejo já manifestado da população Moldova de se reunir à pátria-mãe romena, uma vez que nunca deveriam ter se separado. As atuais tratativas de receber a Moldova dentro da União Europeia mais significa um meio-termo do que uma solução e uma resposta clara às ameaças russas.

O braço protetor dado pela União Europeia pode significar um anteparo ao expansionismo russo, mas não será obstáculo quando notícias de “massacres” da população eslava começarem a surgir no noticiário, como ocorreu na região do Donbas e, antes, na Ossétia do Sul, na Geórgia.

O Século 21 começou com a destruição das torres gêmeas do World Trade Center em Nova York; agora, com a guerra da Ucrânia, deu mais uma arrancada em direção a um mundo multipolar de potências agressivas e indiferentes às reações que suas ações possam causar no cenário internacional.

E cabe ao chamado "mundo livre" responder a tais comportamentos, sob pena de aquiescer com a vontade do mais forte, do mais arrojado, do mais destemido (como foi nos anos 1930 do Século 20), com resultados catastróficos para quase todo a humanidade.

Se a Ucrânia cair, ao fim de uma resistência heroica (comparada aos belgas no início da Primeira Guerra Mundial e os sérvios em 1915 contra os exércitos austro-húngaros), devemos reconhecer o valor de seus soldados e de sua liderança política e reconhecer, também, nossos erros de avaliação dos riscos crescentes que o invasor russo deixou claro em todo o período de preparação; mas então, já deveremos ter um novo bastião de defesa, não apenas na Moldova, como nos países bálticos e nórdicos.

Tempos difíceis e perigosos nos aguardam nos próximos anos. Mas não é a vítima que deve recuar, mas seu agressor que deve ser derrotado, pela união de todos.

Quando Chamberlain entendeu que estava trazendo "paz para o nosso tempo" ao ceder a quase totalidade da Checoslováquia para Hitler, em Munique, em 1938, Churchill deixou registrado no Parlamento: "You were given a chance between war and dishonour. You have chosen dishonour and you will have war".

Como sempre, palavras proféticas e que tiveram seu significado escrito em sangue.




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 é desembargador da 6ª Câmara Cível do TJ-RJ (Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro).

Revista Consultor Jurídico, 1 de julho de 2022, 12h02

Comentários de leitores

1 comentário

Um olhar imparcial

A Indignação em pessoa (Outros)

Com certeza ninguém é favorável a guerra. Mas alguém já fez uma análise imparcial ? Quando extinta URSS ruiu, a OTAN tinha 17 membros. Havia uma promessa do Secretário de Estado Americano de que a OTAN não se expandiria. Desde 1989 até hoje ouve 3 ondas de expansão. Hoje tem mais de 30 membros. A quase uma década a Rússia esta reclamando disto, mas o ocidente discretamente expandiu a OTAN. Todo país filiado a OTAN pode receber uma base de mísseis nucleares em seu território. Seria a mesma coisa que os Russos construírem uma base de mísseis nucleares em Cuba (isto quase aconteceu em 62). Mas os europeus gostam da OTAN. Entram para o clube e no caso de encrenca deixa seu parceiro mais forte EUA resolver a situação. Em vez de investirem em armas e exércitos, gastam com bem estar social. É como a União Europeia. Três fortes economias mundiais, Alemanha, Inglaterra e França carregando bloco com sua moeda forte o Euro, e quando dezenas de economias mundialmente medianas e ou insignificantes, embarcam no trem da alegria (vai a festa do Euro, mas não colabora). A Inglaterra foi esperta e pulou fora. Será que o povo americano tá disposto a entrar numa guerra nuclear por causa dos Europeus ?? Até o governo americano não é no mais adequado para isto. Quando se pensa em guerra, precisa-se de um presidente americano republicano (geralmente linha dura).

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